quinta-feira, janeiro 25, 2007

Testamento de Afonso VI

Por sua morte havia decidido Afonso VI transmitir o trono a sua filha Urraca, viúva do conde Raimundo, impondo-lhe que se casasse com Afonso I de Aragão e que o herdeiro do trono haveria de ser um eventual filho que de ambos nascesse. Reservando a seu neto Afonso Raimundes, no caso de acontecer esse nascimento, apenas o título de Rei da Galiza.

Os antecedentes desta decisão foram contudo curiosos

Quando Afonso VI conquista Toledo em 1085, o alarme entre as restantes praças do El-Andalus instala-se, pelo que decidem pedir auxilio a Yusuf Ibn Tasufin, chefe dos almorávidas, do outro lado do estreito. Integralista radical do Islão, aceita o pedido de ajuda do rei de Sevilha Al-Mutamid, mas não gosta do relaxamento religioso que encontra nos preceitos doutrinais e a grande tolerância que detecta para com os cristãos e os judeus, voltando-se contra os que lhe haviam pedido ajuda.

Após a queda de Málaga e Granada, o rei de Sevilha pede a seu filho Al-Mamun que havia deixado na defesa de Córdova, que a defenda até ao limite, que considerava ser a última defesa de Sevilha.

Prevendo um fim fatal, Al-Mamun manda a sua mulher Zaida, para um outro castelo o de Almodóvar del Rio, que anteriormente havia fortificado.Como previsto,Córdova caiu em poder dos almorávidas em 26 de Março de 1091.

Consciente da perda de Cordova, Zaida a moura decide-se ir para o palácio de seu sogro em Sevilha, que por sua vez na perspectiva de igual desastre para Sevilha, decide que Zaida se vá refugiar na corte de Afonso VI, ao mesmo tempo que lhe entrega as praças de Uclés, Amasatrigo e Cuenca, como penhor de defesa e protecção na situação face aos almorávidas.

A polémica, se essa entrega significaria um dote para D.Afonso VI é colocada por alguns historiadores, para outros não é crível que assim fosse, por ser uma prática estranha aos muçulmanos a entrega de uma princesa, ou para outros o absurdo de tal facto, por ser ainda viva a 5ª mulher de D.Afonso VI, D.Constança.

A chegada a Toledo da jovem Zaida, atiçou o interesse de D.Afonso VI cinquentão e já veterano de 5 casamentos e dois concubinatos, para além das relações incestuosas com sua irmã Urraca. Não teria portanto interesse histórico de maior, mais uma relação extra matrimonial de Afonso VI, não fora o nascimento de um filho, Sancho de seu nome, para que o rei, que apenas tivera filhas, o tenha reconhecido como seu directo descendente, o que na prática daria vir a governar Castela, Leão, Galiza com Portugal e o resto dos condados.

Difícil constatar se teria casado com Zaida, com o intuito de legitimar a descendência de Sancho. De qualquer forma, Zaida morreu de parto e o rei quis que fosse sepultada no mesmo sítio que para si havia destinado, bem como para as suas rainhas e filhos o Mosteiro de Sahagún, onde se encontra hoje junto do rei e do filho Sancho, embora referenciada como Isabel e não Zaida, porque quando se baptizou em Burgos escolheu esse nome cristão, para simbolizar a sua renúncia ao islamismo.

Segundo Gonzalez Palencia escreve na sua História de la España Musulmana a corte de Afonso VI, parecia uma corte muçulmana

“sabios e literatos muslimes anadaban al lado del rey, la moneda se acuñaba en tipos semejantes a los arabes, los cristianos vestian a usanza mora y hasta los clérigos mozárabes de Toledo, hablaban familiarmente el arabe y conocian muy poco el latin, a juzgar por las anotaciones marginales de muchos de sus breviários”.

Que transformação pode operar uma jovem e bela moura num rei cinquentão e batido de muitas guerras e amores, ao ponto de provocar uma alteração deste tipo na corte de uma rei, como Afonso VI, sempre bem vista por Urbano II o papa pregador da ideia de cruzada, quer no Oriente quer na Península Ibérica.?

A ideia da sucessão varonil de Afonso IV, teve larga repercussão quer do ponto de vista político na Península Ibérica, pelas intenções sucessórias de Raimundo de Borgonha assente na sua aliança com D.Henrique do Condado Portucalense(já anteriormente referida), quer do ponto de vista religioso na esfera da Abadia de Cluny, suporte teórico do catolicismo e que se batia pelo abandono das práticas de adulteração dos princípios do cristianismo, ao verem desenhar-se a hipótese de um rei meio muçulmano, como seria Sancho, governar na Península. Só que morreu bem jovem apenas com 12 ou 13 anos, na sequência da batalhe de Úcles

Foram pois estes os condicionalismos que conduziram, ás decisões tomadas por Afonso VI, referidas no primeiro parágrafo

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