quarta-feira, março 07, 2007

A batalha de Ourique-o "milagre"

(Alexandre Herculano)
A grande religiosidade da Idade Média, foi um dos factores, para o desenvolvimento do carácter místico atribuído á batalha de Ourique. A crença que havia na existência de milagres interventivos na vida dos povos e neste caso colocando Portugal como país amparado pela vontade de Deus.

Em traços largos a Crónica de Duarte Galvão conta-a assim :

"Quando foi finda a tarde, depois que o príncipe fez pôr as guardas no seu arraial, o eremita que estava na ermida, veio até ele e disse-lhe :
-Príncipe D.Afonso, Deus te manda por mim dizer que, pela grande vontade e desejo que tens de o servir, quer que tu sejas ledo e esforçado, el te fará amanhã vencer el-rei Ismar e todos os seus grandes poderes. E mais te manda dizer que quando ouvires tocar uma campaínha que está na ermida, deves sair fora e ele te aparecerá no céu, assim como padeceu pelo pecadores (...)
Desde que partiu o eremita, D.Afonso pôs os joelhos em terra e disse :
-Oh senhor bom Deus todo-poderoso, a quem todas as criaturas obedecem, sujeitas a teu poder e querer, a ti só conheço e agradeço (...) E tu senhor, sabes que por te servir passo muita fadiga e trabalho contra estes teus inimigos, com os quais, por serem contra ti, eu não quero paz nem quero tê-los como amigos.
E desde que isto disse, com outras palavras muito devotas, encomendou-se a Deus e à Virgem gloriosa, Sua mãe. Então encostou-se e adormeceu.
E quando foi uma meia-hora antes da manhã, tocou a campaínha como o eremita dissera, o príncipe saiu fora da sua tenda e segundo disse ele mesmo e deu testemunho em sua história, viu Nosso Senhor em cruz, na maneira que lhe dissera o eremita.
E adorou-o muito devotamente com lágrimas de grande prazer.
(...) Neste aparecimento foi o príncipe D.Afonso certificado por Deus de sempre Portugal haver de ser conservado em reino.
(...) Tudo é para crer que Nosso Senhor quereria e faria a Príncipe tão virtuoso, sobre quem fundara reino e reis, tão virtuosos para o seu serviço e da santa fé católica"

Na mesma Crónica se conta mais tarde que D.Afonso relatou aos seus seguidores o acontecido, nomeadamente a divina protecção prometida, tendo sido depois aclamado por todos como rei de Portugal

"-Real, real por el-rei D.Afonso Henriques de Portugal "

Esta visão sobrenatural da fundação de Portugal, manteve-se convictamente enraizada na consciência nacional durante cinco séculos.

Seria Alexandre Herculano no primeiro volume da sua História de Portugal a por em dúvida o chamado "milagre de Ourique", sendo confrontado na altura com enormes protestos provenientes de sectores católicos mais tradicionalistas.

2 comentários:

Pedro Aniceto disse...

De facto fizeram bem em protestar... :) Que isto dos efeitos especiais custa uma pipa de massa! ;)

Kisa disse...

só um pormenor: o primeiro historiador a por em causa o Milagre de Ourique foi Duarte Nunes de Leão [Crónicas dos Reis de Portugal. Porto: Lello & Irmão, 1975. (edição princeps de 1600).]
Segundo este autor, D. Afonso Henriques estaria demasiado ocupado na peleja para ter tempo de falar a Cristo.
cumprimentos