quinta-feira, março 22, 2007

A Raínha D.Mafalda de Sabóia

Quem foi então a nossa primeira Rainha ?

Era filha de Amadeu II, conde de Sabóia, Maurienne e Piemonte, e da condessa Mafalda de Albon. Ignora-se a data do seu nascimento, muito embora se se atender ao facto de ter sido mãe em Maio de 1147, atendendo a que terá casado em 1146, é crível, que andaria nessa data pelos 16-20 anos, pelo que se poderá deduzir que tenha nascido entre 1126 e 1130.

O casamento com o nosso monarca foi provavelmente em 1146. O certo é que só em Julho desse ano figura nos diplomas públicos o nome da soberana, com a forma de Mahada, tradução de Mahaut, nome da princesa de Sabóia.

Da vida da rainha pouco se sabe, mas fica a ideia que não teria muito bom feitio, não sendo bom o seu relacionamento com o prior de Santa Cruz, S.Teotónio.

Um dos conflitos relatados, aponta a sua teimosia em pretender visitar os claustro interiores do mosteiro de Santa Cruz, que Teotónio terá recusado, para não infringir as regras do mosteiro.


Como grande parte das fontes da época, a credibilidade das mesma deixa por vezes muito a desejar, sendo frequente na literatura religiosa da época, referências pouco lisonjeiras a mulheres que ousavam destacar-se enfrentado o poder, fosse civil ou religioso.

Algumas considerações mais românticas insistem em atribuir á vida desta Rainha um certo estigma de infelicidade, pela vivência que o marido lhe proporcionou."Veio encontrar um marido que amava outra mulher e já tinha dela dois filhos" (segundo DF Amaral) e esses desgostos amorosos causados pelo marido, ter-lhe-ão torturado o espírito, que fez "azedar-lhe o feitio.

Pessoalmente coloco algumas reservas a esta concepção, que me parece desajustada, dos conceitos do relacionamento entre casais no século XII. Acrescentado contudo um facto bastas vezes referido, por vários cronistas, que atribuem a D.Afonso Henriques um temperamento colérico.

A sua função materna, essa cumpriu-a em pleno, em apenas 12 anos de casamento, foi mãe de 7 filhos, tendo morrido no parto da última criança, a infanta Sancha em 4 de Novembro de 1157

Não constam nenhuns actos notáveis de que tomasse a iniciativa, além das muitas fundações de piedade e penitência que os cronistas lhe atribuem; como, porém, muitas vezes se confunde a mulher de D. Afonso Henriques com a infanta de Portugal e rainha de Castela, do mesmo nome, filha de D. Sancho I, nem todas as fundações que as crónicas lhe atribuem terão sido realmente dela, mas sim da neta.

Também lhe é atribuída a iniciativa da construção de uma ponte sobre o Douro (perto de Barqueiros) e outra sobre o Tâmega. Está sepultada em Santa Cruz de Coimbra junto do marido.

PS.-Muito embora na maior parte dos documentos da época, apareça com o nome de Mafalda, subsistem dúvidas se o nome dela não seria Matilde

O casamento-A escolha da Raínha

Não querendo "romantizar" em demasia a ideia expressa por Diogo Freitas do Amaral, abordada em postagem anterior, que Châmoa Gomes, mãe de 2 filhos seus , seria o "grande amor" da sua vida, o certa é que aos 35 anos D.Afonso Henriques continuava solteiro, era preciso tratar do seu casamento e não seria concerteza Châmoa Gomes a eleita para a "função" de Rainha.

Levando ainda mais longe a sua teorização romântica, Freitas do Amaral, diz ainda que D.Afonso Henriques terá tentado casar com Châmoa, mas não o terá conseguido, pois naquele tempo de indiscutível autoridade da Igreja Católica os Reis não podiam casar com as amantes e os filhos ilegítimos não podiam suceder-lhes na coroa.

Quanto á possibilidade da amante, deixar de o ser pelo casamento, também, não se poderia colocar, já que Châmoa Gomes, depois de enviuvar do seu primeiro marido, professara no mosteiro de Vairão, logo era Devota (de vota consagrada a Deus) e impedida de se casar.

Muito embora não haja qualquer prova documental, há quem afirme que D.Afonso terá casado com Châmoa, muito embora esse casamento tenha sido anulado pouco tempo depois.

Por outro lado a vassalagem prestada ao Papa com intuito de se promover a independência do Reino, tornava imperativo que D.Afonso Henriques se assumisse como um monarca católico e bem comportado.

Por outro lado os conselheiro do Rei não iriam admitir um casamento com uma familiar dum magnate galego, pois Chamoa era sobrinha do galego Peres Trava.

Quem escolher afinal para Rainha ?

Para alguns a deliberação de D.Afonso Henriques e seu conselheiros, em especial Egas Moniz e D.João Peculiar, teriam sido o de escolher noiva fora do âmbito da monarquia leonesa, não escolher mulher nem na Galiza, nem em Leão, indo buscar uma aliança mais longe.

O que mais uma vez demonstraria, segundo eles, o verdadeiro sentido de Estado do rei D.Afonso e seus conselheiros.

Para outros, por exemplo José Mattoso, a esta hipótese falhou por razões bem mais comezinhas, parece que nenhuma casa real da Península estaria interessada em casar uma sua princesa, com alguém que afinal era apenas duque, conforme o Papa Lúcio II o havia bem recentemente apelidado.

A escolha acabou por recair na filha de Amadeu III conde de Saboia, um condado autónomo não muito conhecido nas cortes peninsulares, mas nem por isso menos importante, como alguns cronistas da época julgavam, por certo por desconhecimento.

Uma das suas irmãs era rainha de França, por casamento com Luís VI, mãe do novo rei Luís VII, pelo que afinal D.Afonso Henriques viria a casar com a sobrinha dum dos Reis mais poderosos da cristandade

domingo, março 18, 2007

Devotionem tuam-A resposta do Papa-(1144)

Apesar das mortes quase seguida dos papas Inocêncio II e Celestino II, o novo papa Lúcio II respondeu ás pretensões portuguesas expressas na carta Claves regni de Dezembro do ano anterior.

A carta é habilidosa no sentido em que não aceita (ou recusa) por inteiro as pretensões enunciadas pelo rei português, fica-se por alguma meia-tinta diplomática, como aliás também se pode entender seja a sua atitude face aos dois reis cristãos de península ibérica.

Quais são os aspectos negativos ?

Não trata D.Afonso Henrique por Rei, trata-o simplesmente por "Ilustre duque portucalense", chama a Portugal terra e não reino, não fala em independência nem promete expressamente a protecção requerida, contra o poder de qualquer senhorio secular. (cf.D.F.Amaral).

e os aspectos favoráveis ?

Aceita a vassalagem e o tributo anual em ouro prometido considera D.Afonso Henriques como ovelha que Cristo recomendou a guarda de Pedro, reconhecendo a luta desenvolvida contra os pagãos e exprime o voto que, D.Afonso permaneça sempre defendido do assalto dos inimigos visíveis e invisíveis e protegido por S.Pedro tanto nas almas como nos corpos.(Cf.D.F.Amaral).

Não pode contudo deixar de se salientar, que muito embora a carta não tenha correspondido em absoluto ás pretensões portuguesas é um facto que desta carta escrita a 1 de Maio de 1144, resulta que a vassalagem proposta pelo rei de Portugal foi aceite e por consequência estaria implícito que assumiria os respectivos deveres.

José Mattoso afirma que não se conhece nenhuma reacção de D.Afonso VII de Leão á vassalagem proposta pelo rei Português antes de 1148, data em que terá tido conhecimento desta carta, o que faz jus á conclusão que se Devotionem tuam, não tivesse efeitos positivos para a autonomia portuguesa por certo Afonso VII não se teria dado ao incómodo de protestar junto da Santa Sé.

O protesto fundamentava-se que o Papa, lhe estaria a "diminuir o senhorio e a dignidade e quebrar os foros da monarquia e de que tivesse aceitado algumas coisas de Afonso Henriques e concedido outras que este pretendera, de modo que os direitos da coroa leonesa eram lesados, ou antes destruídos, com uma injustiça não transitória, mas perpétua", conforme Alexandre Herculano diz na sua História e Portugal


sexta-feira, março 16, 2007

Soure-O último ataque muçulmano-(1144)


Existem divergências quanto à fundação do Castelo de Soure, argumentando alguns que o conde D.Henrique outorgou foral à povoação em 1111 e outros atribuí-la aos muçulmanos.

Há consenso que o castelo foi erguido apressadamente, como não será difícil deduzir atendendo à sua condição de território fronteiriço, tendo sofrido em várias ocasiões assaltos de forças muçulmanas.

Em 1116 deu-se um dos ataques mais violentos, que visava retomar Coimbra, fugindo a população que depois de incendiar o castelo se refugiou em Coimbra.

Mais tarde, a condessa D. Teresa concedeu(1128) à Ordem do Templo o Castelo de Soure e todas as terras entre Coimbra e Leiria, vindo a constituir estes domínios a sede da Ordem em Portugal.

Supõe-se que, após essa investida muçulmana e a destruição do castelo de Soure, Martinho Árias foi encarregado de ali restaurar a igreja e de prestar assistência religiosa aos moradores.

Não há contudo nenhuma notícia de qualquer intervenção dos Templários em operações militares até 1144. A suas forças organizativas estavam mais empenhadas na gestão das numerosas terras que lhe haviam sido entregues em França e noutros países

S. Martinho de Soure, apesar de não ser natural de Soure, veio para esta localidade, (era cónego da Sé de Coimbra), com o seu irmão Mendo, também eclesiástico do mesmo cabido

Segundo o cronista, em 1144, o governador de Santarém Abu-Zakaria ocupou Soure, que destruiu, levando cativa parte da população para Santarém, com excepção de Martinho Árias, que foi conduzido a Córdova, onde vivia a morrer anos mais tarde.

Esta derrota é ilustrativa da má preparação acima referida, contudo o contingente templário terá sido bastante reforçado atendendo à importante ajuda que prestaram a D.Afonso Henriques quando da conquista de Santarém.

Não há informação de mais nenhum ataque muçulmano ao Reino de Portugal após esta data.

quinta-feira, março 15, 2007

A vassalagem ao Papa-(1143)

Na Idade Média existia um conceito, chamado "liberdade romana" que consistia em que "o mosteiro,ou diocese, ou reino, a que era concedida, ficava isento dos poderes civis ou eclesiásticos do lugar a que antes estava sujeito, reconhecendo para o futuro só a autoridade do romano Pontífice ou dos seus legados, ao qual ficava pagando um censo módico".

Ora habilmente, foi neste preceito que D.Afonso Henriques por certo aconselhado pelos seus "assessores", se baseou em tentar junto do papa Celestino II*, esta benesse que a ser-lhe concedida, traria para sempre a liberdade da dependência feudal do Imperador de Leão.

Isto aconteceu menos de 3 meses depois de Zamora a 13 de Dezembro de 1143, data da carta, onde declarava que tinha feito homenagem à Sé Apostólica, nas mãos de o cardeal Guido e que se obrigava a pagar à Santa Sé o censo anual de 4 onças de ouro, sob condição de o papa defender a sua honra e a dignidade da sua terra.Afirmando também que só reconhecia a autoridade do Papa e de mais nenhum poder eclesiástico ou secular.

Através desta carta Claves regni (as chaves do Reino), D.Afonso Henriques intitula-se"Afonso por graça de Deus Rei de Portugal", decide enfeudar o reino de Portugal á Santa Sé, carta confirmada por D.João Peculiar, arcebispo de Braga, D.Bernardo, bispo de Coimbra e D.Pedro, bispo do Porto.

Segundo Diogo Freitas do Amaral "o significado jurídico e político desta carta, tratou-se do que modernamente se designa por declaração unilateral de independência, no sentido de não acordada ou pactuada com Afonso VII de Leão.

Este foi com certeza o momento decisivo na independência de Portugal.

Um aspecto por esclarecer, prende-se com a não reacção de Afonso VII ao facto de segundo o que se diz nesta carta "que tinha feito homenagem à Sé Apostólica, nas mãos de o cardeal Guido" sendo que eventualmente isso tenha acontecido em Zamora dois meses antes.

Com se compreende que Afonso VII, não tenha então reagido a esse acto contrário aos seus interesses ?

Parece claro só existirem duas possibilidades ou não soube, podendo ter acontecido um encontro entre o cardeal Guido e D.Afonso, sem o seu conhecimento, ou soube e Guido de Vico lhe tenha assegurado que o acto de seu primo em nada o prejudicaria.

Afonso VII foi realmente enganado, pelo menos no plano ético, resta-me saber se esse conceito é apenas uma visão desajustada das práticas na Idade Média.


*-Alguns autores indicam Inocêncio II como o papa a quem Afonso Henriques enviou a Clóvis Regni, porém esse Papa já havia morrido em 24 de Setembro, sendo Celestino II papa desde 3 de Outubro de 1143.

Certo que só foi papa alguns meses, pois morreu em Março do ano seguinte.

terça-feira, março 13, 2007

O Tratado de Zamora-(1143)


(Catedral de Zamora)

O Tratado de Zamora foi o resultado da conferência de paz entre Afonso Henriques e o rei Afonso VII de Castela e Leão , a 5 de Outubro de 1143.

Tratado de paz celebrado na presença do legado papal Guido de Vico onde é reconhecido ao infante português o título de rei.

Após cerca de três anos sem hostilidades entre os dois territórios vizinhos, o encontro de Zamora serviu para definir as cláusulas da paz e, possivelmente, os limites de cada Reino.

Recorde-se porém que os três anos de paz, aconteceram não porque o rebelde rei português, tenha a acatado a paz que havia sido estabelecida em Tui em 1137, mas por consequência de uma nova paz ajustada em Valdevez em 1140.

Efectivamente Afonso Henriques, pela 5ª vez em 10 anos, voltara a invadir a Galiza, cercando e tomando Tui em Agosto de 1140.Enorme paciência teve Afonso VII, para com o seu irrequieto primo, para de novo o forçar a voltar à Galiza, retomando com as suas hostes, locais que haviam sido tomados pelos portugueses.

Como era então costume na Idade Média, ajustou-se então a realização de um torneio, entre um número limitado de cavaleiros portugueses e leoneses.

Consta-se que o resultado da refrega foi favorável ás forças portuguesas e que na sequência se teria ajustado em "cessar-fogo", por alguns anos até que "depois com mais sossego, se pudesse assentar uma paz definitiva e duradoira" (Alexandre Herculano)

Ao mesmo tempo,nessa Conferência, foi reconhecido o título de rei a D. Afonso Henriques, reafirmando-se os seus laços de vassalagem em relação a Leão.

Será muito interessante notar-se que a data da conferência de Zamora aconteceu em 4 e 5 de Outubro de 1143 e que a implantação da Republica igualmente aconteceu em 5 de Outubro de 1910, concluindo-se que aconteceram 767 anos de monarquia em Portugal, se se considerar a data de Zamora como a da fundação da nacionalidade.

Teoria discutível dado que, o que aconteceu em Zamora foi apenas o reconhecimento por Afonso VII da condição de rei a D.Afonso Henriques, que servia perfeitamente os seu interesses dado que pretendia lhe fosse reconhecido o título de Imperador e portanto aumentava o seu prestígio ter reis como vassalos.

Certo é que após esta data , não tenha acontecido mais nenhum conflito grave entre Afonso Henriques e Afonso VII.

sábado, março 10, 2007

Chamoa Gomes e o primeiro filho


Não foi por certo fruto de primeiras experiências amorosas, mas foi em 1140 que D.Afonso Henriques foi pai pela primeira vez, tinha então á volta de 30 anos.

Fontes de imaginação mais romântica como Diogo Freitas do Amaral, afirmam que foi a mãe desse primeiro filho Chamoa* Gomes, por "quem se enamora intensamente, que será o grande amor da sua vida", que é nem mais nem menos que uma sobrinha de Fernão Peres de Trava.

Chamoa foi primeiro casada com Paio Soares de quem teve 3 filhos, enviuvou, foi monja num mosteiro beneditino. Teve mais tarde um filho de Mem Rodrigues de Tougues, que morreu novo, só depois conheceu D.Afonso Henriques.Talvez a sua vida atribulada lhe tenha valido a alcunha de "A Loba".

Este primeiro filho que se chamará Fernando Afonso, irá desempenhar um papel político importante, mesmo depois da morte de seu pai.

Fernando Afonso, foi eleito grão-mestre da Ordem do Hospital em 1202,provavelmente por influência que sua meia-irmã Matilde de Flandres exercia junto do papa Inocêncio III.

Tendo participado no vergonhoso cerco a Constantinopla em 1204, no âmbito da 4ª Cruzada, pois como se sabe o objectivo era de conquista da Terra Santa.

Neste ano é documentada a sua presença em Acre em Julho de 1204

Demite-se do seu cargo e volta a Portugal em 1206. Segundo o Chronica magistrorum defunctorum (um texto do século XIV) no regresso á pátria foi envenenado "pela sua gente". A sua sepultura está na igreja de S.João de Alporão em Santarém.

(Cf. Mattoso, José - "A Formação da Nacionalidade no espaço Ibérico", História de Portugal, vol. II, (dir. José Mattoso), Círculo de Leitores, s.l., 1993.)

Na foto a velha Igreja de S. João do Alporão, construída durante o século XII.
A Igreja integrava-se numa das portas de acesso à Vila – a Porta de Alporão - e era um ponto fundamental na organização urbana de Santarém.
No século XIV, realizavam-se no local reuniões onde se discutiam os problemas da Vila. Mais tarde, corria o século XVII, chegou a servir de arrecadação a um particular. Em 1910, o edifício foi classificado como Monumento Nacional e hoje é o Museu Municipal de Santarém, onde pode ser visto um valioso espólio arqueológico e cultural.


* Alguns autores chamam-lhe Flâmula Gomes

quarta-feira, março 07, 2007

A batalha de Ourique-o "milagre"

(Alexandre Herculano)
A grande religiosidade da Idade Média, foi um dos factores, para o desenvolvimento do carácter místico atribuído á batalha de Ourique. A crença que havia na existência de milagres interventivos na vida dos povos e neste caso colocando Portugal como país amparado pela vontade de Deus.

Em traços largos a Crónica de Duarte Galvão conta-a assim :

"Quando foi finda a tarde, depois que o príncipe fez pôr as guardas no seu arraial, o eremita que estava na ermida, veio até ele e disse-lhe :
-Príncipe D.Afonso, Deus te manda por mim dizer que, pela grande vontade e desejo que tens de o servir, quer que tu sejas ledo e esforçado, el te fará amanhã vencer el-rei Ismar e todos os seus grandes poderes. E mais te manda dizer que quando ouvires tocar uma campaínha que está na ermida, deves sair fora e ele te aparecerá no céu, assim como padeceu pelo pecadores (...)
Desde que partiu o eremita, D.Afonso pôs os joelhos em terra e disse :
-Oh senhor bom Deus todo-poderoso, a quem todas as criaturas obedecem, sujeitas a teu poder e querer, a ti só conheço e agradeço (...) E tu senhor, sabes que por te servir passo muita fadiga e trabalho contra estes teus inimigos, com os quais, por serem contra ti, eu não quero paz nem quero tê-los como amigos.
E desde que isto disse, com outras palavras muito devotas, encomendou-se a Deus e à Virgem gloriosa, Sua mãe. Então encostou-se e adormeceu.
E quando foi uma meia-hora antes da manhã, tocou a campaínha como o eremita dissera, o príncipe saiu fora da sua tenda e segundo disse ele mesmo e deu testemunho em sua história, viu Nosso Senhor em cruz, na maneira que lhe dissera o eremita.
E adorou-o muito devotamente com lágrimas de grande prazer.
(...) Neste aparecimento foi o príncipe D.Afonso certificado por Deus de sempre Portugal haver de ser conservado em reino.
(...) Tudo é para crer que Nosso Senhor quereria e faria a Príncipe tão virtuoso, sobre quem fundara reino e reis, tão virtuosos para o seu serviço e da santa fé católica"

Na mesma Crónica se conta mais tarde que D.Afonso relatou aos seus seguidores o acontecido, nomeadamente a divina protecção prometida, tendo sido depois aclamado por todos como rei de Portugal

"-Real, real por el-rei D.Afonso Henriques de Portugal "

Esta visão sobrenatural da fundação de Portugal, manteve-se convictamente enraizada na consciência nacional durante cinco séculos.

Seria Alexandre Herculano no primeiro volume da sua História de Portugal a por em dúvida o chamado "milagre de Ourique", sendo confrontado na altura com enormes protestos provenientes de sectores católicos mais tradicionalistas.

domingo, março 04, 2007

A batalha de Ourique-A aclamação

A importância que a historiografia deu a esta batalha, pelo menos até meados do século XIX, deveu-se ao facto de a ela estar associada a aclamação de D.Afonso Henriques como rei de Portugal, já que esse título aparece pela primeira vez num documento, bem datado, a 10 de Abril de 1140.

Outros de datação menos segura podem apontar para outras datas, mas uma coisa é certa, não foi encontrado nenhum documento autêntico que atribua o título de rei a D.Afonso Henrique anterior a 25 de Julho de 1139 dia em que se deu a batalha.

Não deve contudo considerar-se essa alteração significativa em termos de independência, a mudança operada no foro interno a passagem de condado a reino, pouco alterava a situação de dependência face a Afonso VII.

A atribuição do título de rei foi pois um momento importante sob o aspecto pessoal, mas não significou mais do que mostrar a vontade de ser independente.

A batalha de Ourique começou a assumir o seu carácter lendário, aparecendo pela primeira vez no princípio do sec XIV na Crónica Galego-Portuguesa de Espanha e Portugal.

Começa-se a esboçar a lenda de Ourique:batalha travada contra numerosa força de cinco reis mouros e ganha ou pela força da protecção divina (versão clerical) ou pela valentia dos cavaleiros (versão nobiliárquica).

As fontes árabes silenciam-na, assim como as crónicas castelhanas, omissão que tem sido interpretada como indício seguro de que o confronto, apenas reduzido a uma memória regional, nunca terá tido as dimensões que os textos de Coimbra mais tarde lhe atribuíram.

Na sequência de Alexandre Herculano, admite-se hoje que Ourique tenha consistido num simples fossado, ainda que se conceba que nele pudessem estar envolvidas forças de algumas importantes cidades islâmicas chefiadas pelo respectivo governador ou alcaide, atendendo a que, em 1139, desde Abril, Afonso VII cercava a praça moura de Oreja, motivando a mobilização de tropas provenientes de todo o al-Andalus, podendo ter sido um dos seus contingentes aquele que foi derrotado em Ourique.

É nesta linha que os "modernos" defensores da possibilidade da batalha de Ourique se ter travado mesmo no Alentejo, em traços gerais
  • concentração de exércitos mouros coligados defendendo Oreja, enfraqueceriam as forças no litoral peninsular.
  • durante mais de um mês, as forças de Afonso Henriques, atravessando o Tejo fora das linhas almorávidas, atacaram povoações menos bem defendidas, chegando até a Andaluzia.
  • O governado de Córdova terá reunido algumas tropas, tentando eliminar os atacantes, tendo então sido vencido na campina de Ourique.

sexta-feira, março 02, 2007

A batalha de Ourique-A localização

1139-25 de Julho

Não se sabe se o fossado da Ladeia, anteriormente referido, já tinha sido encorajado pelos de D.Afonso VII de 1133, que durante 4 meses devastou os territórios inimigos até á Andaluzia, o certo é que muitos outros se seguiram, alguns com êxito, outros como o de Tomar no ano de 1137, classificado como de "infortúnio" pelos Anais de D.Afonso.

Em fins de Junho princípios de Julho, o príncipe português parte de Coimbra com as suas tropas, em direcção ao Sul com o propósito de retomar e reerguer o castelo de Leiria e em 25 de Julho de 1139 dá-se um batalha , num local que fontes da época e posteriores denominam de Ourique.

A incursão em território inimigo, terá sido interceptado em Ourique pelo rei Esmar, que foi vencido e teve que abandonar o campo de batalha.

Onde se situava então Ourique ?

A resposta é controversa, entre a interpretação clássica que situa Ourique na vila que conserva hoje o mesmo nome a sul de Beja e de Castro Verde, cujo nome designava, uma extensa zona de pastagem.
Perguntando-se os críticos desta tese, como é que o jovem infante conseguiria passar as suas tropas num percurso de mais de 250 quilómetros, sem antes ser interceptado por exércitos inimigos, Com forças situadas pelo menos em Santarém, Lisboa, Palmela, Évora e Beja.

Para responder a esta dificuldade, alguns historiadores, têm proposto como local de batalha, não essa vila alentejana, mas outros locais com o mesmo nome, visto que pelo menos existem mais três :
  • um nas proximidades do Cartaxo
  • outro nas proximidades de Leiria
  • outro junto a Penela
Desde 1900 o prof.David Lopes sustentou, que dadas as posições militares dos portugueses e dos muçulmanos na época, Ourique tinha necessariamente que se situar a norte de Santarém, indicando a localização de "Chão de Ourique" próximo do Cartaxo, apenas 15 quilómetros a sul de Santarém.

Considerando que D.Afonso partiu de Coimbra em direcção ao sul e se defrontou pouco depois com as tropas de Esmar, que lha saíram ao caminho, é lógico concluir-se que Ourique só poderia situar-se entre Leiria e Santarém, sendo nesse caso de excluir todas as outras hipóteses, restando (segundo Freitas do Amaral) a de se considerar como local de batalha o "Campo de Ourique", junto á nascente do rio Lis, na freguesia de Cortes, concelho de Leiria, hipótese colocada pelo Dr.José Saraiva em 1929.

Resumindo
  • Em princípios de Julho D.Afonso sai de Coimbra com o seu exército, para ir recuperar o castelo de Leiria.
  • Apossando-se deste castelo, deixa um punhado de homens a guardá-lo e a proceder á reconstrução do castelo.
  • Continuando para sul, pode ter-lhe ocorrido conquistar Santarém.
  • Esmar governador militar de Santarém, avança para norte, para lhe sair ao caminho.
  • Dá-se então a confrontação em "Campo de Ourique", sendo Esmar derrotado.
Esta hipótese bastante simplista, embora com alguma lógica, afasta outras "divagações" históricas que se foram produzindo durante séculos, sobre a heroicidade do feito, em que a desproporção de forças, entre as hostes portuguesas e muçulmanas, era enorme , atendendo a que do lado "infiel" se alinhavam nada menos do que forças de 5 reis mouros, vindas de Sevilha, Badajoz,Évora e Beja.

Como seria possível ter acontecido tal coligação, se a recuperação de Leiria, intentada por D.Afonso Henriques, ocorreu de repente ?

Poderemos estar contudo a falar de mera coincidência de ocorrências, que levantaria a possibilidade da coligação se estar a preparar para atacar Coimbra, como retaliação ao inúmeros fossados que as hostes portucalenses se tinham habituado a intentar.

Ver-se-á que outros historiadores defendem outras teses, associando o combate militar de Ourique, a outras "coligações divinas", que lhe conferirão o estatuto de milagre